{"id":1941,"date":"2013-07-15T12:02:30","date_gmt":"2013-07-15T15:02:30","guid":{"rendered":"http:\/\/peabiru.org.br\/?p=1941"},"modified":"2013-07-15T12:02:30","modified_gmt":"2013-07-15T15:02:30","slug":"entrevista-meliponicultura-e-a-revolucao-das-abelhas-nativas-sem-ferrao-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/peabiru.org.br\/en\/2013\/07\/15\/entrevista-meliponicultura-e-a-revolucao-das-abelhas-nativas-sem-ferrao-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Entrevista: Meliponicultura e a revolu\u00e7\u00e3o das Abelhas Sem Ferr\u00e3o da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1710\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/peabiru.org.br\/en\/a-caixa-de-abelhas-nativas-pode-ser-aberta-com-as-maos-desprotegidas-rafael-araujo\/\" rel=\"attachment wp-att-1710\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1710\" class=\"size-full wp-image-1710\" src=\"http:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/a-caixa-de-abelhas-nativas-pode-ser-aberta-com-as-mc3a3os-desprotegidas-c2a9rafael-araujo.jpg\" alt=\"A caixa de abelhas nativas pode ser aberta com as m\u00e3os desprotegidas, sem risco de picada. Foto: Rafael Ara\u00fajo\" width=\"520\" height=\"346\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1710\" class=\"wp-caption-text\">A caixa de abelhas nativas pode ser aberta com as m\u00e3os desprotegidas, sem risco de picada (Foto: Rafael Ara\u00fajo)<\/p><\/div>\n<p>O pesquisador Fernando Oliveira, um dos principais estudiosos das abelhas sem ferr\u00e3o no Brasil, e sobretudo na Amaz\u00f4nia, fala em entrevista ao site do Instituto Peabiru, sobre os avan\u00e7os e desafios da meliponicultura, atividade que gera renda \u00e0s comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia e garante uma s\u00e9rie de servi\u00e7os ambientais, da poliniza\u00e7\u00e3o \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de carbono.<\/p>\n<p>O estudioso pesquisa as abelhas sem ferr\u00e3o desde 1995 e se dedica h\u00e1 quase 20 anos ao desenvolvimento de tecnologias para a atividade, criando em 2000 o modelo de caixa de colmeia que transformou a produ\u00e7\u00e3o de mel de abelhas nativas sem ferr\u00e3o na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Oliveira \u00e9 consultor do Instituto Peabiru, que desenvolve o programa Abelhas Sem Ferr\u00e3o. A ONG trabalha h\u00e1 cinco anos com cerca de 350 fam\u00edlias entre comunidades tradicionais \u2013 quilombolas do Amap\u00e1, \u00edndios do Oiapoque, ribeirinhos do Maraj\u00f3 e agricultores familiares de Curu\u00e7\u00e1 \u2013 para avan\u00e7ar na estrutura\u00e7\u00e3o de um programa de meliponicultura.<\/p>\n<p>Acompanhe abaixo a entrevista concedida por e-mail.<\/p>\n<p><b>1. Quais s\u00e3o os principais avan\u00e7os da meliponicultura hoje no Brasil? As abelhas sem ferr\u00e3o se tornaram mais conhecidas, mais cultivadas? Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> Bem, antes \u00e9 bom lembrar que o manejo das abelhas de ferr\u00e3o datam a \u00e9poca de Cristo. J\u00e1 as nossas abelhas ind\u00edgenas sem ferr\u00e3o come\u00e7aram a ser estudadas na d\u00e9cada de 60, ou seja, em apenas 55 anos de meliponicultura j\u00e1 sabemos como manejar, reproduzir, manter col\u00f4nias e colher mel de abelhas nativas. Isso \u00e9 um grande avan\u00e7o se comparados aos 2.000 anos para aprender a manejar as temidas <i>Apis melifera <\/i>sp.<i>, <\/i>abelhas que ferroam e matam.<\/p>\n<p>Foi a partir do ano 2000 que a meliponicultura saiu dos laborat\u00f3rios dos grandes centros de estudos para os quintais das fam\u00edlias tradicionais da Amaz\u00f4nia, ou seja, 13 anos atr\u00e1s pouqu\u00edssimas pessoas conheciam as abelhas sem ferr\u00e3o e t\u00e3o pouco o maravilhoso mel. N\u00e3o temos n\u00fameros exatos, mas penso que um m\u00ednimo de 3.000 fam\u00edlias tem abelhas nativas sendo manejadas nos seus quintais com alguma tecnologia e arrisco a pensar em 20.000 o n\u00famero de col\u00f4nias, o que \u00e9 extraordin\u00e1rio. Sa\u00edmos de zero para 50.000 quilos de mel em apenas 13 anos. A internet tem grande participa\u00e7\u00e3o nesta difus\u00e3o do conhecimento sobre a meliponicultura, pelos fartos materiais encontrados atualmente na rede.<\/p>\n<p><b>2. Quais s\u00e3o as principais dificuldades encontradas pelos produtores de mel nativo no desenvolvimento da meliponicultura hoje? <\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> Nos pr\u00f3ximos anos a meliponicultura deve ter a sua consolida\u00e7\u00e3o a partir das repeti\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do mel. Isso certamente ir\u00e1 garantir um melhor engajamento das fam\u00edlias meliponicultoras. Esfor\u00e7os institucionais est\u00e3o sendo disponibilizados para viabilizar e superar a log\u00edstica continental da Amaz\u00f4nia. Neste caso, trato das dist\u00e2ncias e isolamento dos produtores que continuam dependendo de apoio. Este \u00e9 o Custo da Sustentabilidade Amaz\u00f4nica, que eu entendo como justo, e vem garantindo o avan\u00e7o da Meliponicultura.<\/p>\n<p><b>3. Quais as principais vantagens da meliponicultura frente a apicultura? Por que as pessoas ainda confundem os duas culturas?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> N\u00e3o culpo o brasileiro por n\u00e3o conhecer as abelhas sem ferr\u00e3o. At\u00e9 porque o meu primeiro contato com as abelhas sem ferr\u00e3o foi aos 30 anos de idade quando eu chegai na Amaz\u00f4nia. Posso at\u00e9 pensar que se n\u00e3o fosse a Amaz\u00f4nia na minha vida, pouco prov\u00e1vel que eu pegaria uma abelha na m\u00e3o. Isso porque abelhas, para as pessoas que n\u00e3o vivem na floresta, abelhas s\u00e3o aquelas que ferroam. At\u00e9 hoje me perguntam por que incentivamos criar abelhas sem ferr\u00e3o, j\u00e1 que as nossas abelhas produzem poucos quilos de mel e por que n\u00e3o incentivamos criar as abelhas assassinas que produzem um mont\u00e3o de mel. F\u00e1cil responder: \u00e9 que estamos na Amaz\u00f4nia e n\u00e3o na \u00c1frica e n\u00e3o queremos ver nossas crian\u00e7as e amigos correndo perigo de vida. Al\u00e9m do que, o nosso mel \u00e9 bem mais especial, com aroma, fluidez, sabor e colora\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticas fundamentais de valoriza\u00e7\u00e3o do nosso mel. Produzimos menos, mas valorizamos mais. \u00c9 s\u00f3 clicar na rede e v\u00ea que o mel comum custa U$$ 2,50 e o mel de melipon\u00edneos, as abelhas sem ferr\u00e3o, custa em m\u00e9dia R$ 60,00.<\/p>\n<p>Outro ponto muito favor\u00e1vel para criar abelhas sem ferr\u00e3o \u00e9 que o custo de instala\u00e7\u00f5es. \u00c9 extremamente mais barato e a tecnologia de manejo \u00e9 muito simples. Ent\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil e barato criar dezenas de colmeias de melipon\u00edneos bem pertinho de casa, sem nenhum perigo.<\/p>\n<p><b>4. Como foi desenvolvida a caixa de produ\u00e7\u00e3o de mel nativo que tem o seu nome? Por que ela \u00e9 a mais apropriada para as abelhas nativas da Amaz\u00f4nia?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> Em 1999 a maneira de reproduzir uma col\u00f4nia era enfiar a m\u00e3o e pegar um peda\u00e7o do ninho e colocar em uma nova caixa. Eu at\u00e9 que gostava de colocar a m\u00e3o nos bichos, mas tinha que ter muita disciplina para tudo dar certo no final. Muitos modelos de colmeias foram criados at\u00e9 hoje, eu usei o meu tempo pensando em como uma fam\u00edlia ribeirinha poderia manejar e reproduzir uma col\u00f4nia de melipon\u00edneos. Foi a\u00ed que idealizei uma colmeia dividida em m\u00f3dulos, que separavam os elementos de uma col\u00f4nia. O ninho ocupa 2 partes que se separam, dividindo o ninho ao meio quando separamos os m\u00f3dulos. A vantagem \u00e9 que al\u00e9m de n\u00e3o mais precisar pegar o ninho com a m\u00e3o e dividir ao meio, os ninhos nos m\u00f3dulos s\u00e3o estruturados na sua plenitude, com potes de mel e abelhas jovens e adultas, garantindo o sucesso reprodutivo da col\u00f4nia. Penso que foi a\u00ed que a meliponicultura deu o grande salto.<\/p>\n<p><b>5. Como a meliponicultura pode se tornar uma importante ferramenta de conserva\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os ambientais nas m\u00e3os das comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia?<\/b><b><br \/>\n<\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> A meliponicultura foi concebida pensando em gera\u00e7\u00e3o de trabalho e renda, ou seja, produzir mel.\u00a0Assim foi feito nos primeiros anos, mas era inevit\u00e1vel que a conserva\u00e7\u00e3o das florestas estava diretamente ligada ao fato de muitas fam\u00edlias do interior estarem manejando estas abelhas em maiores quantidades. Era a ressurgimento dos principais insetos polinizadores que h\u00e1 d\u00e9cadas estavam sendo ca\u00e7ados para a retirada do mel. Warvick Kerr, um pesquisador de abelhas sem ferr\u00e3o, me contou que ao redor das comunidades do interior da Amaz\u00f4nia os \u00edndices de ninhos de melipon\u00edneos chegam a zero, de tanto que o caboclo gosta de mel, ou seja, as col\u00f4nias encontradas eram destru\u00eddas s\u00f3 para colher o mel. Al\u00e9m da import\u00e2ncia da poliniza\u00e7\u00e3o que chega a 90% na Amaz\u00f4nia, a meliponicultura ganha ares de futuro, relacionado ao aquecimento global e reten\u00e7\u00e3o de carbono. O meu amigo bi\u00f3logo e pesquisador Richardson Fraz\u00e3o, do Instituto Peabiru, estimou o tamanho da \u00e1rea de influ\u00eancia conservada com o manejo das abelhas sem ferr\u00e3o. Ele considera que com um conjunto de 30 fam\u00edlias manejando 83 colmeias cada, pelo menos 1.600 hectares de florestas s\u00e3o conservadas, assegurando que 160.000 toneladas de carbono deixam de ser liberadas na atmosfera. Desta forma, cada colmeia ap\u00f3ia na fixa\u00e7\u00e3o de 40 kg de carbono, al\u00e9m de cada quilo de mel fixar 16 kg de carbono.<\/p>\n<p>Eu poderia continuar enunciando todos os benef\u00edcios que as abelhas representam, mas penso que o f\u00edsico Albert Einstein, na primeira metade do s\u00e9culo XX, pode explicar bem melhor do que eu, assim: <i>\u201cSe as abelhas desaparecerem da superf\u00edcie do planeta, ent\u00e3o ao homem restariam apenas quatro anos de vida. Com o fim das abelhas, acaba a poliniza\u00e7\u00e3o, acabam as plantas, acabam os animais, acaba o homem.\u201d <\/i><\/p>\n<p><b>\u00a06. Como voc\u00ea v\u00ea o papel do Instituto Peabiru e outras ONGs neste processo?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Fernando Oliveira &#8211;<\/b> Atualmente grandes institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o trabalhando com meliponicultura e vejo o Instituto Peabiru com uma linha de trabalho bem interessante, juntando um modelo participativo com as fam\u00edlias meliponicultoras, com foco n\u00e3o s\u00f3 na gera\u00e7\u00e3o de renda mas valorizando os servi\u00e7os ambientais, o respeito a biodiversidade. Valorizando n\u00e3o s\u00f3 as esp\u00e9cies locais, mas, avan\u00e7ando em temas como linhagens das esp\u00e9cies e a vanguarda na rela\u00e7\u00e3o da Meliponicultura com a fixa\u00e7\u00e3o de carbono, atuando pragmaticamente na melhoria da qualidade de vida de Gaia.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pesquisador Fernando Oliveira, um dos principais estudiosos das abelhas sem ferr\u00e3o no Brasil, e sobretudo na Amaz\u00f4nia, fala em entrevista ao site do Instituto Peabiru, sobre os avan\u00e7os e desafios da meliponicultura, atividade que gera renda \u00e0s comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia e garante uma s\u00e9rie de servi\u00e7os ambientais, da poliniza\u00e7\u00e3o \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de carbono. 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