{"id":3303,"date":"2015-07-14T15:42:45","date_gmt":"2015-07-14T18:42:45","guid":{"rendered":"http:\/\/peabiru.org.br\/?p=3303"},"modified":"2015-07-14T15:42:45","modified_gmt":"2015-07-14T18:42:45","slug":"dia-do-berto-mito-ou-realidade-ignorada-por-orgaos-publicos-e-elos-da-cadeia-do-acai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/peabiru.org.br\/en\/2015\/07\/14\/dia-do-berto-mito-ou-realidade-ignorada-por-orgaos-publicos-e-elos-da-cadeia-do-acai\/","title":{"rendered":"Dia do Berto: mito ou realidade ignorada por \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e elos da cadeia do A\u00e7a\u00ed?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3304\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3304\" class=\"wp-image-3304 size-full\" src=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2.jpg\" alt=\"retirada a\u00e7a\u00ed - Alan Kardek (2)\" width=\"520\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2.jpg 1920w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/retirada-ac3a7ac3ad-alan-kardek-2-2048x1152.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><p id=\"caption-attachment-3304\" class=\"wp-caption-text\">T\u00e9cnicas rudimentares de retirar o a\u00e7a\u00ed ainda s\u00e3o utilizadas at\u00e9 hoje, colocando em risco a sa\u00fade do extrativista. (Foto: Alan Kardek)<\/p><\/div>\n<p>No folclore marajoara, h\u00e1 uma lenda sobre um ser nefasto, respons\u00e1vel por causar os mais diversos acidentes na colheita do a\u00e7a\u00ed. Contam os caboclos ribeirinhos que o verdadeiro respons\u00e1vel por \u201cpretejar\u201d o cacho do a\u00e7aizeiro (<em>Euterpe olereacea<\/em>) \u00a0\u00e9 uma entidade conhecida como \u201cBerto\u201d.<\/p>\n<p>O \u201cDia do Berto\u201d \u00e9 o in\u00edcio da safra do fruto amaz\u00f4nico e acontece em 24 de agosto, quando o Berto \u00e9 solto no mundo e vai at\u00e9 as ilhas mijar no a\u00e7aizeiro. Por ser um dos muitos apelidos dados pelo caboclo ao Diabo, neste dia \u00e9 proibida a colheita do a\u00e7a\u00ed, viagens e muito menos, sa\u00eddas para a mata. A supersti\u00e7\u00e3o ganha mais for\u00e7a com os diversos relatos de acidentes com pessoas que desafiam a cultura popular e se aventuram no a\u00e7aizal.<\/p>\n<p>No entanto, o folclore amaz\u00f4nico reflete uma problem\u00e1tica at\u00e9 ent\u00e3o pouco discutida \u2013 as condi\u00e7\u00f5es de trabalho do extrativista ribeirinho de a\u00e7a\u00ed. Por marcar o in\u00edcio da safra \u2013 o Dia do Berto \u2013, tamb\u00e9m marca o in\u00edcio de uma atividade cuja condi\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a de trabalho \u00e9 de alt\u00edssimo risco. Da\u00ed, n\u00e3o seria equivocado em falar que o Berto est\u00e1 solto por todo o per\u00edodo da colheita do a\u00e7a\u00ed.<\/p>\n<p>Desde tempos imemoriais, sobe-se no a\u00e7aizeiro para coletar cachos de frutos, empregando t\u00e9cnicas rudimentares de fabricar uma peconha a partir da pr\u00f3pria folha e, levar um objeto cortante para retirar o cacho. Esta \u00e9 uma atividade que o ribeirinho aprende desde crian\u00e7a, como parte das tradi\u00e7\u00f5es da socializa\u00e7\u00e3o ao trabalho, relacionadas ao manejo de recursos naturais de seu ambiente florestal e aqu\u00e1tico. Entretanto, na \u00faltima d\u00e9cada, com o crescimento exponencial do mercado do vinho (polpa) de a\u00e7a\u00ed, a coleta passou a atender, n\u00e3o apenas o consumo da pr\u00f3pria fam\u00edlia ou localidade, ou o limitado mercado regional, que consumia a\u00e7a\u00ed fresco, <em>in natura<\/em>, para se transformar em uma cadeia de valor de interesse global.<\/p>\n<p>Este impulso econ\u00f4mico reflete diretamente no aumento da atividade extrativista e, por consequ\u00eancia, no maior n\u00famero de acidentes de trabalho. \u00c9 preciso considerar que, diariamente, na safra, dezenas de milhares de pessoas, no Amap\u00e1, Amazonas e, principalmente, no Par\u00e1, arrisquem suas vidas, ao subir nos a\u00e7aizeiros para coletar cachos com frutos de a\u00e7a\u00ed.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a maioria destas pessoas, os peconheiros, s\u00e3o jovens, sobem sem qualquer equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI), e com uma faca ou fac\u00e3o, sem bainha, entre seus dentes, ou enfiando em seu cal\u00e7\u00e3o, que, ali\u00e1s, \u00e9 a \u00fanica vestimenta utilizada na maioria dos casos. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil que este coletor salte de um a\u00e7aizeiro a outro, arriscando-se ainda mais.<\/p>\n<p>Em rara mat\u00e9ria na imprensa, intitulada \u201cAcidentes em a\u00e7aizeiros preocupam os m\u00e9dicos\u201d \u2013, o Di\u00e1rio do Par\u00e1, em 16.7.2012, alertava, sobre os dados do Dr. Guata\u00e7ara Gabriel,\u00a0 chefe do SAMU e do Hospital Metropolitano de Bel\u00e9m \u2013 Cerca de 18% dos traumas provocados por queda, registrados no Hospital Metropolitano de Urg\u00eancia e Emerg\u00eancia (HMUE), s\u00e3o de extrativistas que despencam dos a\u00e7aizeiros na hora de colher o fruto [DIARIO DO PARA, 2012].<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, esta externalidade, como outras de car\u00e1ter ambiental (monocultura do a\u00e7a\u00ed), ou n\u00e3o consideradas, ou s\u00e3o minimizadas. Isto para que n\u00e3o impacte no pre\u00e7o do produto. O resultado \u00e9 o que todo o risco da atividade fica com o produtor familiar e principalmente, os jovens. Os demais elos da cadeia de valor \u2013 transportadores, processadores (batedores locais e industrias, de diferentes dimens\u00f5es), atacadistas e varejistas \u2013\u00a0n\u00e3o reconhecem este risco. E, mais grave, o tema \u00e9 totalmente invis\u00edvel ao consumidor. H\u00e1 uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica sobre subir no a\u00e7aizeiro e que, n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade do dia-a-dia do coletor e aos riscos de quebra de \u00e1rvore, picada de insetos, cobras, escorpi\u00f5es etc..<\/p>\n<p>A parceria entre o Instituto Peabiru e o Tribunal Regional do Trabalho da 8\u00aa Regi\u00e3o (TRT8) \u00e9 uma tentativa de enfrentamento desta problem\u00e1tica de maneira, ao realizar um diagn\u00f3stico sobre a situa\u00e7\u00e3o do coletor de a\u00e7a\u00ed, procurando responder, entre outras quest\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Que tipo de riscos correm atualmente os peconheiros? H\u00e1 registros de acidentes? Invalidez? \u00d3bitos? H\u00e1 sub-notifica\u00e7\u00e3o? Em que circunst\u00e2ncias se deram? O que poderia ter sido feito para evitar tais riscos e acidentes?<\/li>\n<li>Como tornar a atividade de coleta de a\u00e7a\u00ed em seu ambiente natural como atividade segura? E, que garanta a sustentabilidade financeira de profissionais e fam\u00edlias?<\/li>\n<li>Quantos s\u00e3o os peconheiros? Coletam para quais fins (seguran\u00e7a alimentar, comercializa\u00e7\u00e3o)? Quantos participam da cadeia de valor do a\u00e7a\u00ed? Quantos s\u00e3o jovens e, em que faixa et\u00e1ria?<\/li>\n<li>Qual o grau de informalidade na profiss\u00e3o?<\/li>\n<li>Qual a participa\u00e7\u00e3o da mulher neste processo? H\u00e1 diferen\u00e7a de pagamento para mulheres? Jovens ganham menos que adultos?<\/li>\n<li>Que t\u00e9cnicas j\u00e1 identificadas podem garantir maior seguran\u00e7a? O manejo contribui para diminuir os acidentes, j\u00e1 que se prev\u00ea a extra\u00e7\u00e3o das palmeiras mais altas e antigas? H\u00e1 invento de mecanismos, estes podem ser utilizados em maior escala?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para o diretor geral do Instituto Peabiru, Jo\u00e3o Meirelles Filho, estas s\u00e3o problem\u00e1ticas a tratar \u00a0n\u00e3o apenas com o pr\u00f3prio extrativista, mas com todos os elos da cadeia de valor, inclusive o consumidor final. \u201cAo aumentarmos o conhecimento sobre a natureza da coleta do a\u00e7a\u00ed, nas quest\u00f5es relacionadas \u00e0 seguran\u00e7a e sa\u00fade do trabalhador, as rela\u00e7\u00f5es da atividade infantis e de jovens na cadeia de valor e avaliar a informalidade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho no setor, podemos iniciar este debate e propor solu\u00e7\u00f5es, juntamente com o ribeirinho &#8211; a parte mais interessada\u201d, analisa Meirelles.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Amaz\u00f4nia como um todo, \u2013 e n\u00e3o apenas no tema da colheita do a\u00e7a\u00ed \u2013, n\u00e3o assegura o bem estar de suas popula\u00e7\u00f5es, especialmente do meio rural. Entre os resultados mais vis\u00edveis est\u00e3o o aumento da exclus\u00e3o, especialmente de povos e comunidades tradicionais associado ao desmatamento sem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade. E uma das raz\u00f5es que torna o produto amaz\u00f4nico barato ao brasileiro e ao mundo \u00e9 a alta taxa de informalidade nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e nas quest\u00f5es fiscais.<\/p>\n<p>\u201cAs cadeias de valor tradicionais, relacionadas ao extrativismo e \u00e0 agricultura familiar, apresentam desafios como a informalidade nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a alta inseguran\u00e7a para a sa\u00fade no manejo de recursos naturais. Isto ocorre especialmente em cadeias de valor que crescem rapidamente, como \u00e9 o caso do a\u00e7a\u00ed, cuja cadeia emprega dezenas, ou mesmo centenas de milhares de pessoas &#8211; os n\u00fameros s\u00e3o prec\u00e1rios\u201d, alerta Jo\u00e3o Meirelles.<\/p>\n<p>Uma pergunta feita de imediato na quest\u00e3o do a\u00e7a\u00ed, por exemplo, levanta d\u00favidas sobre o que falta para que sejam desenvolvidas ferramentas e tecnologia que garantam a seguran\u00e7a do produtor. A verdade \u00e9 que este se trata de um tema invis\u00edvel, n\u00e3o discutido. \u201cQuando se mostra estrat\u00e9gias de subir com mais seguran\u00e7a trata-se como uma curiosidade, uma brincadeira. Em segundo lugar, os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis n\u00e3o se preocupam com o tema. S\u00f3 da\u00ed em diante \u00e9 que poderemos avan\u00e7ar\u201d, diz Jo\u00e3o Meirelles.<\/p>\n<p>Por fim, esperemos que o Berto seja condescendente neste agosto e n\u00e3o fa\u00e7a estripulias com os meninos e meninas da Amaz\u00f4nia que sobem nos a\u00e7aizeiros.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No folclore marajoara, h\u00e1 uma lenda sobre um ser nefasto, respons\u00e1vel por causar os mais diversos acidentes na colheita do a\u00e7a\u00ed. Contam os caboclos ribeirinhos que o verdadeiro respons\u00e1vel por \u201cpretejar\u201d o cacho do a\u00e7aizeiro (Euterpe olereacea) \u00a0\u00e9 uma entidade conhecida como \u201cBerto\u201d. 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