{"id":5756,"date":"2017-11-20T17:59:56","date_gmt":"2017-11-20T20:59:56","guid":{"rendered":"http:\/\/peabiru.org.br\/?p=5756"},"modified":"2017-11-20T17:59:56","modified_gmt":"2017-11-20T20:59:56","slug":"entrevista-os-desafios-da-polinizacao-de-abelhas-sem-ferrao-na-amazonia-com-joao-meirelles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/peabiru.org.br\/en\/2017\/11\/20\/entrevista-os-desafios-da-polinizacao-de-abelhas-sem-ferrao-na-amazonia-com-joao-meirelles\/","title":{"rendered":"Entrevista: Os Desafios da Poliniza\u00e7\u00e3o de Abelhas Sem Ferr\u00e3o na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\">\n\t\t\t#gallery-1 {\n\t\t\t\tmargin: auto;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-item {\n\t\t\t\tfloat: left;\n\t\t\t\tmargin-top: 10px;\n\t\t\t\ttext-align: center;\n\t\t\t\twidth: 33%;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 img {\n\t\t\t\tborder: 2px solid #cfcfcf;\n\t\t\t}\n\t\t\t#gallery-1 .gallery-caption {\n\t\t\t\tmargin-left: 0;\n\t\t\t}\n\t\t\t\/* see gallery_shortcode() in wp-includes\/media.php *\/\n\t\t<\/style>\n\t\t<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-5756 gallery-columns-3 gallery-size-thumbnail'><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/peabiru.org.br\/en\/nectar-da-amazonia-logo-final-colorido-2\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/nectar-da-amazonia-logo-final-colorido-150x150.png\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl><dl class='gallery-item'>\n\t\t\t<dt class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/peabiru.org.br\/en\/fundo-amaz-logopeq\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/fundo-amaz-logopeq-150x150.png\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/dt><\/dl>\n\t\t\t<br style='clear: both' \/>\n\t\t<\/div>\n\n<p style=\"text-align:center;\"><em>Jo\u00e3o Meirelles, diretor do Instituto Peabiru, fala da trajet\u00f3ria de 10 anos de aprendizados da meliponicultura junto a agricultores familiares, quilombolas e grupos ind\u00edgenas no Par\u00e1 e no Amap\u00e1<\/em><\/p>\n<p>\u201cSem abelhas n\u00e3o h\u00e1 florestas. Sem abelhas n\u00e3o h\u00e1 comida\u201d. Jo\u00e3o Meirelles, diretor do Instituto Peabiru, \u00e9 categ\u00f3rico ao falar da import\u00e2ncia das abelhas, sobretudo as abelhas sem ferr\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>A meliponicultura, atividade de cria\u00e7\u00e3o, manejo e produ\u00e7\u00e3o de mel dessas abelhas sem ferr\u00e3o silvestres oferece diversas alternativas para a conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, para agricultura e produ\u00e7\u00e3o de alimentos, e para a renda de pequenas comunidades que vivem em situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o na regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Benef\u00edcios fundamentais que ainda precisam ser conhecidos pela maioria da popula\u00e7\u00e3o. \u201cEstamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o e os impactos positivos desta a\u00e7\u00e3o para a sobreviv\u00eancia do bioma Amaz\u00f4nia e de suas popula\u00e7\u00f5es\u201d, reitera Meirelles.<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos o Instituto Peabiru trabalha na multiplica\u00e7\u00e3o de conhecimentos e aprendizados sobre a meliponicultura junto a comunidades tradicionais, grupos quilombolas e ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Hoje, colhe resultados importantes do projeto para as abelhas sem ferr\u00e3o, chamado N\u00e9ctar da Amaz\u00f4nia: a regulamenta\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o do mel e o fortalecimento de uma cadeia de valor comercial, que vai levar o produto \u00e0s prateleiras com todas as certifica\u00e7\u00f5es exigidas a um produto agroalimentar.<\/p>\n<p>Com financiamento do Fundo Amaz\u00f4nia (BNDES), desde 2014 o projeto trabalha com cerca de 100 pequenos produtores de 26 comunidades nos estados do Par\u00e1 e Amap\u00e1. S\u00e3o quase cinco mil colmeias manejadas e uma previs\u00e3o de safra de mais de meia tonelada de mel para este ano.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 um come\u00e7o. Para que a meliponicultura avance, \u00e9 preciso desmistificar a cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o. \u201cO grande esfor\u00e7o \u00e9 simplificar a atividade, baratear sua implementa\u00e7\u00e3o, torn\u00e1-la o mais aut\u00f4noma poss\u00edvel\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, Meirelles fala dos desafios para que a meliponicultura chegue aos quintais, ro\u00e7as e s\u00edtios da regi\u00e3o, tanto do Brasil como dos 8 paises da Amaz\u00f4nia, garantindo seguran\u00e7a alimentar, renda complementar e diminui\u00e7\u00e3o do desmatamento e queimadas.<\/p>\n<p>&#8220;O cerne da a\u00e7\u00e3o do Peabiru \u00e9 apresentar aos diferentes contextos socioambientais como isto pode ser feito como neg\u00f3cio da agricultura familiar e como pode ser agregado \u00e0s demais tarefas da agricultura\u201d, explica.<\/p>\n<p>Para o diretor do Instituto Peabiru, a poliniza\u00e7\u00e3o e os outros servi\u00e7os ambientais oferecidos pelas abelhas sem ferr\u00e3o podem at\u00e9, economicamente, superar a agropecu\u00e1ria da destrui\u00e7\u00e3o que impera na Amaz\u00f4nia, e que gera pouca renda e exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>\u201cEstamos no in\u00edcio de uma era fabulosa na agricultura, onde o mel e outros produtos relacionados a polinizadores estar\u00e3o associados \u00e0 comida do futuro, e que, ao mesmo tempo, salvar\u00e3o as florestas e a economia agr\u00edcola da Amaz\u00f4nia e das florestas tropicais\u201d, acredita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_5457\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5457\" class=\"alignnone size-full wp-image-5457\" src=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8-160223-retirada-seringa1.jpg\" alt=\"8-160223-retirada-seringa1\" width=\"800\" height=\"659\" srcset=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8-160223-retirada-seringa1.jpg 800w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8-160223-retirada-seringa1-300x247.jpg 300w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8-160223-retirada-seringa1-768x633.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-5457\" class=\"wp-caption-text\">Meirelles verifica produ\u00e7\u00e3o de Melipona flavolineata. Mel da Pedreira, Macap\u00e1, AP. Fev\/ 2016.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>H\u00e1 dez anos o Instituto Peabiru desenvolve a\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o racional de abelhas sem ferr\u00e3o junto a povos e comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia. No in\u00edcio, a atividade era muito pouco conhecida e valorizada, restrita a meios acad\u00eamicos. Quais raz\u00f5es levaram a institui\u00e7\u00e3o a apostar na meliponicultura?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; No in\u00edcio dos anos 2000, quando conhecemos a cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o, a meliponicultura, abriu-se um universo para n\u00f3s no Instituto Peabiru. Ficou claro que a tem\u00e1tica n\u00e3o se reduzia a produzir um mel diferente. O que aprendemos \u00e9 a necessidade de tratar da agricultura e da conserva\u00e7\u00e3o com a participa\u00e7\u00e3o das abelhas silvestres e os polinizadores em geral. Conseguimos os primeiros recursos e erramos bastante no in\u00edcio. O maior problema foi que os projetos eram de curto prazo e havia grandes intervalos entre um projeto e outro. Mesmo assim, insistimos que esta seria uma \u00e1rea de aten\u00e7\u00e3o especial da organiza\u00e7\u00e3o. Com o desaparecimento das abelhas no planeta, o recrudescimento do desmatamento e das queimadas, aumentou um pouco a sensibilidade geral para o papel dos polinizadores, onde se insere a meliponicultura. O que queremos mesmo \u00e9 a efetiva aten\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, dos agricultores e dos formadores de opini\u00e3o que se preocupam com o meio ambiente. Na verdade, estamos na pr\u00e9-hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o e os benef\u00edcios desta a\u00e7\u00e3o para a sobreviv\u00eancia do bioma Amaz\u00f4nia e de suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em><strong>Quais s\u00e3o os principais aprendizados e resultados alcan\u00e7ados nessa d\u00e9cada de trabalho? Hoje, a que ponto est\u00e1 o projeto N\u00e9ctar da Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; \u00c9 desmistificar a cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o. O grande esfor\u00e7o \u00e9 simplificar a atividade, baratear sua implementa\u00e7\u00e3o, torn\u00e1-la o mais aut\u00f4noma poss\u00edvel. Se queremos que milh\u00f5es de agricultores na Amaz\u00f4nia brasileira e continental e em outros biomas tropicais e subtropicais criem abelhas sem ferr\u00e3o como criam galinhas, o pacote tecnol\u00f3gico deve ser bastante simples. A parceria com a Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental \u00e9 estrat\u00e9gica neste sentido. Diversos pesquisadores e criadores de abelhas sem ferr\u00e3o no Brasil desenvolveram m\u00e9todos simples de cria\u00e7\u00e3o e avan\u00e7aram bastante na pesquisa e tecnologia. Mas, a cria\u00e7\u00e3o propriamente dita continua a ser um hobby, em escala n\u00e3o comercial. O cerne da a\u00e7\u00e3o do Peabiru \u00e9 apresentar aos diferentes contextos socioambientais de que maneira isto pode ser feito como um neg\u00f3cio da agricultura familiar, e como pode ser agregado \u00e0s demais tarefas da agricultura. O projeto N\u00e9ctar da Amaz\u00f4nia avan\u00e7ou tamb\u00e9m na plena legaliza\u00e7\u00e3o da atividade, seja na cria\u00e7\u00e3o de um animal da fauna brasileira, seja na autoriza\u00e7\u00e3o de comercializa\u00e7\u00e3o do produto: o mel de abelhas sem ferr\u00e3o. O apoio do Fundo Amaz\u00f4nia (BNDES) desde 2014 foi fundamental para completar o ciclo de produ\u00e7\u00e3o da cadeia de valor do mel de abelhas sem ferr\u00e3o, desde o agricultor familiar at\u00e9 a prateleira do mercado.<\/p>\n<p><b><i>C<\/i><\/b><em><strong>omo \u00e9 poss\u00edvel aliar em um produto agroalimentar informal, como o mel de abelhas sem ferr\u00e3o, uma alternativa de renda para fam\u00edlias rurais de baixa renda e uma iniciativa de combate ao desmatamento e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Se uma fam\u00edlia de agricultores, com renda de um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal, vender 40 litros de mel em um ano a R$ 20,00\/litro, ter\u00e1 uma renda de R$ 800,00, bem pr\u00f3ximo da renda de um m\u00eas da fam\u00edlia. Isto faz muita diferen\u00e7a. \u00c9 surpreendente que ainda haja mais de 1 milh\u00e3o de fam\u00edlias altamente exclu\u00eddas no meio rural amaz\u00f4nico brasileiro. Mas, a cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o oferece oportunidade de melhorar a seguran\u00e7a alimentar ao garantir mais frutos, castanhas e outros produtos em sua ro\u00e7a de subsist\u00eancia; permite maior produtividade aos neg\u00f3cios que geram dinheiro ao agricultor, como o a\u00e7a\u00ed, o cacau e outras frutas; e oferece uma nova compreens\u00e3o no manejo de recursos naturais, especialmente no cuidado com o fogo, com o desmatamento e com os polinizadores em geral. A valoriza\u00e7\u00e3o do mel pelo mercado gourmet \u00e9 uma janela de oportunidade que precisa ser aproveitada e que poder\u00e1 garantir valores ainda maiores para o agricultor. \u00c9 um produto que apresenta distintos sabores, colora\u00e7\u00f5es, e est\u00e1 pronto a receber identifica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica (IG) e ser relacionado \u00e0 comunidade que o produz: quilombola, ribeirinha ou ind\u00edgena. N\u00e3o se trata da salva\u00e7\u00e3o da lavoura e sim uma renda complementar na cesta de produtos da agrobiodiversidade t\u00edpica da agricultura familiar amaz\u00f4nica, especialmente de povos e comunidades tradicionais.<\/p>\n<p><em><strong>Apesar da meliponicultura n\u00e3o exigir altos investimentos em roupas de prote\u00e7\u00e3o e outros insumos caros como na apicultura, sabe-se que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pequena e requer dedica\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o gera desinteresse dos pequenos produtores? Como \u00e9 feito o trabalho de envolvimento dessas fam\u00edlias rurais com a atividade?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Em verdade, a dedica\u00e7\u00e3o exigida \u00e9 bem pequena se comparada a outras atividades rurais. Outra vantagem \u00e9 poder localizar o melipon\u00e1rio (as caixas de abelhas) pr\u00f3ximo \u00e0 resid\u00eancia. Algumas horas semanais s\u00e3o suficientes para cuidar das abelhas. Numa primeira etapa de cerca de dois anos n\u00e3o h\u00e1 renda, pois o objetivo \u00e9 multiplicar o n\u00famero de colmeias. Por exemplo, de 4 colmeias, em dois anos pode-se alcan\u00e7ar, sem dificuldade, cerca de 20 colmeias. A partir da\u00ed vende-se o mel anualmente, e este vem alcan\u00e7ando bom pre\u00e7o por ser raro e \u00fanico. Se o cuidar das abelhas e a renda ficar na m\u00e3o da mulher certamente \u00e9 a seguran\u00e7a alimentar da fam\u00edlia que ganha. E se envolver jovens, teremos a\u00ed uma nova profiss\u00e3o para o campo brasileiro, a de meliponicultor. Tamb\u00e9m temos a renda da venda das colmeias para outros agricultores, que s\u00e3o necess\u00e1rias para a expans\u00e3o da atividade e que, no momento, pode ser t\u00e3o ou mais significativa que a venda do mel.<\/p>\n<p><em><strong>Em realidades de exclus\u00e3o como a de muitas fam\u00edlias rurais e comunidades tradicionais da Amaz\u00f4nia, como a produ\u00e7\u00e3o do mel pode garantir seguran\u00e7a alimentar?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Primeiramente, o mel \u00e9 um poderoso e completo alimento, muito mais que um simples ado\u00e7ante. Pode ter importante papel para melhorar a seguran\u00e7a alimentar e a qualidade de vida, especialmente de crian\u00e7as (acima de 1 ano), jovens e idosos. Em segundo lugar, a presen\u00e7a das abelhas aumenta em pelo menos em 30% a produ\u00e7\u00e3o de frut\u00edferas, verduras e outras \u00e1rvores que fazem parte do pomar no entorno da casa, o que significa mais alimento de qualidade no prato. Em terceiro lugar, ao aumentar a produ\u00e7\u00e3o das atividades que geram dinheiro para o agricultor \u2013 a\u00e7a\u00ed, cacau, frut\u00edferas, castanhas \u2013, permite que haja mais recursos para a aquisi\u00e7\u00e3o de produtos que complementam a produ\u00e7\u00e3o local. H\u00e1 os efeitos complementares e de longo prazo, altamente relevantes, entre os quais est\u00e1 evitar o desmatamento e as queimadas que tem impacto na sobreviv\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es futuras. Menos fogo e desmatamento significa mais umidade no solo e no ar, cursos d\u2019\u00e1gua fluindo mais tempo, solo mais f\u00e9rtil, maior biodiversidade, maior presen\u00e7a de polinizadores, menor risco de pragas e, afinal, para as culturas agr\u00edcolas que d\u00e3o dinheiro melhor chance de bons resultados.<\/p>\n<p><em><strong>O recente aumento do interesse de mercado pelo mel de abelhas sem ferr\u00e3o para a gastronomia poderia transformar a meliponicultura em uma oportunidade de amplia\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais e ambientais na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Sim, na medida que expande-se a produ\u00e7\u00e3o, pode-se oferecer mais mel, a menores pre\u00e7os e em diferentes variedades. Hoje se tu quiseres mel de abelhas sem ferr\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil obt\u00ea-lo e, legalizado, ent\u00e3o, praticamente inexistente. \u00c9 um nova fam\u00edlia de produtos para a gastronomia que se abre. Veja o queijo ou o vinho, h\u00e1 um grande esfor\u00e7o em relacionar o produto a determinada regi\u00e3o, apresentar as suas caracter\u00edsticas \u00fanicas tanto relacionadas ao meio natural como ao processo cultural para sua obten\u00e7\u00e3o. O mesmo se pode fazer para o mel. Imagina, ent\u00e3o, que o mel produzido pelo grupo ind\u00edgena Galibi, das grandes florestas de terra firme do Oiapoque, no Amap\u00e1, relacionado a uma determinada esp\u00e9cie de abelha, que s\u00f3 se encontra l\u00e1, oferece padr\u00f5es, sabores e odores muito particulares! Este mel certamente ser\u00e1 distinto daquele extra\u00eddo pelo agricultor familiar do entorno da Reserva Extrativista M\u00e3e Grande de Curu\u00e7\u00e1, no Salgado Paraense, que protege as florestas de mangues. Acredito que estamos no in\u00edcio de uma era fabulosa na agricultura, onde o mel e outros produtos relacionados a polinizadores estar\u00e3o associados \u00e0 comida do futuro, e que, ao mesmo tempo, salvar\u00e3o as florestas e a economia agr\u00edcola da Amaz\u00f4nia, e nos permitir\u00e3o superar a agropecu\u00e1ria da destrui\u00e7\u00e3o que impera na Amaz\u00f4nia, que gera pouca renda e muita exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><em><strong>O Instituto Peabiru alcan\u00e7ou uma regulamenta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita para os pequenos produtores, o que foi um grande avan\u00e7o, mas quais s\u00e3o ainda as principais dificuldades para o fortalecimento de uma escala comercial do mel de abelhas sem ferr\u00e3o? Como sair do mercado informal e entrar nas prateleiras dos supermercados?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Estamos em plena campanha pela simplifica\u00e7\u00e3o do licenciamento da cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o. \u00c9 inimagin\u00e1vel que um agricultor, isolado, sem acesso \u00e0 internet ou escrit\u00f3rios de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, com dificuldade de comprovar a sua leg\u00edtima posse de terras ancestrais seja capaz de manter atualizado o seu cadastro como produtor. Precisamos pensar sistemas simplificados que estimulem o manejo de abelhas sem ferr\u00e3o e que contribuam para a manuten\u00e7\u00e3o de sua biodiversidade. Quanto \u00e0 formaliza\u00e7\u00e3o deste processo, h\u00e1 que se considerar a legaliza\u00e7\u00e3o do produtor e suas abelhas, de uma lado; e, de outro, a obten\u00e7\u00e3o de um produto que seja seguro para consumo e tenha o selo de inspe\u00e7\u00e3o p\u00fablico, seja este municipal, estadual ou federal.<\/p>\n<p><em><strong>A grande agricultura brasileira e tamb\u00e9m a agricultura familiar j\u00e1 descobriram os benef\u00edcios da poliniza\u00e7\u00e3o para o aumento da produ\u00e7\u00e3o e a qualidade dos frutos. Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Deveria ser obrigat\u00f3rio o ensino sobre o papel dos polinizadores e seu impacto na alimenta\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e para a sobreviv\u00eancia dos ambientes naturais. Mesmo em culturas como a soja, a poliniza\u00e7\u00e3o pode aumentar em 30% sua renda. As escolas de todos os n\u00edveis do pa\u00eds deveriam criar abelhas sem ferr\u00e3o para apresentar o seu papel na sociedade. Como queremos que o consumidor que n\u00e3o conhece a import\u00e2ncia das abelhas silvestres se preocupe com a sua conserva\u00e7\u00e3o e mesmo cria\u00e7\u00e3o se ele n\u00e3o conhece a sua import\u00e2ncia? As escolas t\u00e9cnicas agr\u00edcolas, a universidade nas \u00e1reas de ci\u00eancias agr\u00e1rias e biol\u00f3gicas e as assist\u00eancias t\u00e9cnicas rurais t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de dominar o tema, esta deveria ser uma prioridade nacional \u2013 o agricultor brasileiro tem direito a este conhecimento, a este ativo da biodiversidade brasileira. Sem abelhas n\u00e3o h\u00e1 florestas. Sem abelhas n\u00e3o h\u00e1 comida.<\/p>\n<p><em><strong>Diante dos grandes benef\u00edcios sociais e ambientais oferecidos pela meliponicultura, nossas abelhas brasileiras, as abelhas sem ferr\u00e3o, poderiam se tornar animais de cria\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, como galinhas e porcos, nas ro\u00e7as e quintais das pequenas fam\u00edlias rurais da Amaz\u00f4nia? Quais seriam os caminhos para isso?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Meirelles<\/strong> &#8211; Esta \u00e9 a proposta. Todo agricultor familiar, todo s\u00edtio de lazer e mesmo espa\u00e7os urbanos deveriam ser utilizados para criar e facilitar a vida dos polinizadores. Vamos precisar de todos os polinizadores bem protegidos e respeitados se quisermos ter comida neste pequeno planeta. Vamos come\u00e7ar pela Amaz\u00f4nia. A li\u00e7\u00e3o de casa \u00e9 simples: cada agricultor precisa compreender que a meliponicultura \u00e9 uma atividade agr\u00edcola como qualquer outra, como criar galinhas, porcos ou outros animais.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Meirelles, diretor do Instituto Peabiru, fala da trajet\u00f3ria de 10 anos de aprendizados da meliponicultura junto a agricultores familiares, quilombolas e grupos ind\u00edgenas no Par\u00e1 e no Amap\u00e1 \u201cSem abelhas n\u00e3o h\u00e1 florestas. Sem abelhas n\u00e3o h\u00e1 comida\u201d. 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