{"id":6194,"date":"2018-04-30T11:52:56","date_gmt":"2018-04-30T14:52:56","guid":{"rendered":"http:\/\/peabiru.org.br\/?p=6194"},"modified":"2018-04-30T11:52:56","modified_gmt":"2018-04-30T14:52:56","slug":"amazonia-o-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/peabiru.org.br\/en\/2018\/04\/30\/amazonia-o-que-fazer\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia, o que fazer?"},"content":{"rendered":"<p>[Artigo de autoria de Jo\u00e3o Meirelles Filho*, originalmente publicado na Revista P\u00e1gina 22 &#8211; <a href=\"http:\/\/pagina22.com.br\/2018\/04\/25\/amazonia-o-que-fazer\/\">clique aqui para acessar o original<\/a>]<\/p>\n<h4><em>Nenhum dos quatro pilares que tornam a Amaz\u00f4nia \u00fanica \u00e9 respeitado. Trata-se do maior desmatamento da Hist\u00f3ria da humanidade \u2013\u00a050 milh\u00f5es de hectares em 50 anos<\/em><\/h4>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00e3o temos enorme vergonha de entregar a Amaz\u00f4nia \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es na situa\u00e7\u00e3o atual de caos em que se encontra? Gostaria de compartilhar a reflex\u00e3o que me inquieta h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. H\u00e1 alguns dias reli o breve livro que escrevi em 1986 \u2013 <em>Amaz\u00f4nia, o que fazer? <\/em>(Companhia Editora Nacional, S\u00e3o Paulo) e observei, at\u00f4nito, que nenhum dos quatro pilares que tornam a Amaz\u00f4nia \u00fanica \u00e0 Humanidade \u00e9 respeitado. Na minha vis\u00e3o considerava a Amaz\u00f4nia fonte de mat\u00e9rias-primas (alimentares, medicinais, florestais etc.), fundamental ao equil\u00edbrio ecol\u00f3gico planet\u00e1rio, espa\u00e7o vital de civiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e uma das \u00faltimas regi\u00f5es naturais do planeta.<\/p>\n<p>Naquele momento, o desmatamento representava cerca de 8% da regi\u00e3o (36,5 milh\u00f5es de hectares), a pecu\u00e1ria era o carro-chefe, com cerca de 20 milh\u00f5es de cabe\u00e7as (menos de 20% do rebanho brasileiro na \u00e9poca), a presen\u00e7a da soja era insignificante, a grande minera\u00e7\u00e3o h\u00e1 pouco tempo iniciara em Caraj\u00e1s, havia apenas Tucuru\u00ed e duas pequenas unidades e a popula\u00e7\u00e3o era de 12 milh\u00f5es de habitantes (1980). Hav\u00edamos sa\u00eddo de longo per\u00edodo de ditadura militar, as queimadas eram um problema apenas local; ainda n\u00e3o se empregava conceitos como sustentabilidade, mudan\u00e7a clim\u00e1tica, servi\u00e7os ambientais; e o brasileiro desconhecia a Amaz\u00f4nia, inclusive o fato de que metade dela estava sob guarda de oito pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p>Em apenas tr\u00eas d\u00e9cadas, o desmatamento quase triplicou, alcan\u00e7ando cerca de 20% (80 milh\u00f5es de ha), equivalente \u00e0 Regi\u00e3o Sul e o estado de S\u00e3o Paulo juntos. Seguimos, h\u00e1 400 anos, na ditadura da pata do boi, com o rebanho da Amaz\u00f4nia pr\u00f3ximo de 100 milh\u00f5es de cabe\u00e7as (45% do total). A soja expande e alcan\u00e7a 5 milh\u00f5es de ha (maior que Alagoas e Sergipe somados); o Par\u00e1 se tornou pot\u00eancia mundial em minera\u00e7\u00e3o; grandes hidrel\u00e9tricas surgiram no Madeira, Xingu e dezenas de Pequenas\u00a0Centrais Hidrel\u00e9tricas (PCH) em diversas bacias (projetam-se mais de 300 unidades).<\/p>\n<p>A maior parte da madeira \u00e9 desperdi\u00e7ada e raramente valorizada, nem mesmo pela popula\u00e7\u00e3o local. Casa de madeira \u00e9 casa de pobre. A popula\u00e7\u00e3o cresceu 2,5 vezes, aproxima-se dos 30 milh\u00f5es e se tornou essencialmente urbana (acima de 80%). Manaus concentra mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do maior estado, o Amazonas. Em 30 anos, as capitais da Amaz\u00f4nia competem entre as mais violentas cidades do mundo. De uma regi\u00e3o que pouco vendia ao Brasil e ao exterior, tornou-se um <em>player<\/em> global, ainda que a pre\u00e7os ris\u00edveis e alto impacto socioambiental, de madeira, carne bovina, energia el\u00e9trica ao Brasil e, de soja e min\u00e9rios ao exterior.<\/p>\n<p>O desmatamento prossegue, ainda que mais lento, \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de mais tempo. Trata-se do maior desmatamento da Hist\u00f3ria da humanidade \u2013\u00a050 milh\u00f5es de hectares em 50 anos. E o fogo anualmente devasta o que a motosserra n\u00e3o resolveu.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que compreendemos efetivamente por que desmatamos a Amaz\u00f4nia? Por que optamos por uma Amaz\u00f4nia extrativista\u00a0\u2013 provedora de produtos prim\u00e1rios ou pouco processados? At\u00e9 mesmo o a\u00e7a\u00ed, o mais recente produto, apresenta baixa incorpora\u00e7\u00e3o de valor, funda-se em uma cadeia altamente informal, onde reina o trabalho prec\u00e1rio a mais de 100 mil coletores e grassa fortemente o trabalho infanto-juvenil.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, segue profunda a exclus\u00e3o de povos ind\u00edgenas, quilombolas e popula\u00e7\u00f5es tradicionais, com desrespeito sistem\u00e1tico a suas culturas, direitos e territ\u00f3rios. Mesmo diante da maior biodiversidade do planeta, vemos as viola\u00e7\u00f5es di\u00e1rias das Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, o desmonte de institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, e as raras organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil em grande dificuldade de serem ouvidas. Os indicadores sociais s\u00e3o sofr\u00edveis (tenho vergonha de apresent\u00e1-los). As cidades da Amaz\u00f4nia est\u00e3o entre os piores lugares para uma mulher viver no Brasil: Marab\u00e1, 1<sup>a<\/sup> no levantamento do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea, 2017); Ananindeua, 2<sup>a<\/sup> no Mapa da Viol\u00eancia (2015); Paragominas, 1<sup>a<\/sup> no Mapa da Viol\u00eancia (2012). Infind\u00e1vel a lista de viola\u00e7\u00f5es \u2013 e dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Todos esses dados nos levam a concluir: n\u00f3s, brasileiros, amaz\u00f4nidas ou n\u00e3o, somos irrespons\u00e1veis perante a Amaz\u00f4nia e seus habitantes. A pergunta \u00e9: como sair deste redemoinho que nos inviabilizar\u00e1 e nos extinguir\u00e1?<\/p>\n<h4><strong>As solu\u00e7\u00f5es minimamente honestas<\/strong><\/h4>\n<p>Continuo confiante de que o diferencial da Amaz\u00f4nia \u00e9 o mesmo apresentado no in\u00edcio deste artigo. Vivendo h\u00e1 14 anos na regi\u00e3o, aprendi que as pessoas v\u00eam primeiro e, especialmente, quem tem direitos originais (povos ind\u00edgenas), constitucionais (quilombolas) e os povos e comunidades tradicionais (que t\u00eam pol\u00edtica p\u00fablica pr\u00f3pria) \u2013 juntos, somam mais de 5 milh\u00f5es de pessoas. Raramente ouvimos as mulheres, os jovens e as crian\u00e7as desses grupos. O que pensam sobre a regi\u00e3o?<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia \u00e9 fundamental para a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no Centro-Sul do Brasil, suas cidades e agricultura, al\u00e9m de essencial ao equil\u00edbrio clim\u00e1tico planet\u00e1rio. A partir da ci\u00eancia e do conhecimento tradicional associado \u00e0 biodiversidade abre-se um universo de oportunidades para a biotecnologia. H\u00e1, ainda, o potencial tur\u00edstico, a oportunidade de cobrar por servi\u00e7os ambientais e outros ativos que s\u00f3 a Amaz\u00f4nia possui.<\/p>\n<p>Retorno \u00e0 pergunta inicial \u2013\u00a0Amaz\u00f4nia, o que fazer? A discuss\u00e3o \u00e9 urgente. N\u00e3o temos um plano de longo prazo para a regi\u00e3o (e, alguma vez tivemos?), apenas apagamos inc\u00eandios. Com isso, proponho uma quest\u00e3o anterior: afinal, a Amaz\u00f4nia \u00e9 importante para n\u00f3s, brasileiros?<\/p>\n<p>*<em>Escritor, com nove livros publicados sobre a regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Ativista socioambiental, dirige o Instituto Peabiru, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que em 2018 completa 20 anos<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_6195\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6195\" class=\"alignnone size-full wp-image-6195\" src=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/pag22.jpg\" alt=\"pag22\" width=\"800\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/pag22.jpg 800w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/pag22-300x167.jpg 300w, https:\/\/peabiru.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/pag22-768x427.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-6195\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Jean Dallazem\/Flickr Creative Commons. Publicada no original, Revista P\u00e1gina 22<\/p><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Artigo de autoria de Jo\u00e3o Meirelles Filho*, originalmente publicado na Revista P\u00e1gina 22 &#8211; clique aqui para acessar o original] Nenhum dos quatro pilares que tornam a Amaz\u00f4nia \u00fanica \u00e9 respeitado. 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