Entrevista: Os Desafios da Polinização de Abelhas Sem Ferrão na Amazônia

João Meirelles, diretor do Instituto Peabiru, fala da trajetória de 10 anos de aprendizados da meliponicultura junto a agricultores familiares, quilombolas e grupos indígenas no Pará e no Amapá

“Sem abelhas não há florestas. Sem abelhas não há comida”. João Meirelles, diretor do Instituto Peabiru, é categórico ao falar da importância das abelhas, sobretudo as abelhas sem ferrão do Brasil.

A meliponicultura, atividade de criação, manejo e produção de mel dessas abelhas sem ferrão silvestres oferece diversas alternativas para a conservação do meio ambiente, para agricultura e produção de alimentos, e para a renda de pequenas comunidades que vivem em situação de exclusão na região amazônica.

Benefícios fundamentais que ainda precisam ser conhecidos pela maioria da população. “Estamos na pré-história da criação de abelhas sem ferrão e os impactos positivos desta ação para a sobrevivência do bioma Amazônia e de suas populações”, reitera Meirelles.

Há dez anos o Instituto Peabiru trabalha na multiplicação de conhecimentos e aprendizados sobre a meliponicultura junto a comunidades tradicionais, grupos quilombolas e indígenas da Amazônia.

Hoje, colhe resultados importantes do projeto para as abelhas sem ferrão, chamado Néctar da Amazônia: a regulamentação da criação do mel e o fortalecimento de uma cadeia de valor comercial, que vai levar o produto às prateleiras com todas as certificações exigidas a um produto agroalimentar.

Com financiamento do Fundo Amazônia (BNDES), desde 2014 o projeto trabalha com cerca de 100 pequenos produtores de 26 comunidades nos estados do Pará e Amapá. São quase cinco mil colmeias manejadas e uma previsão de safra de mais de meia tonelada de mel para este ano.

É só um começo. Para que a meliponicultura avance, é preciso desmistificar a criação de abelhas sem ferrão. “O grande esforço é simplificar a atividade, baratear sua implementação, torná-la o mais autônoma possível”, destaca.

Nesta entrevista, Meirelles fala dos desafios para que a meliponicultura chegue aos quintais, roças e sítios da região, tanto do Brasil como dos 8 paises da Amazônia, garantindo segurança alimentar, renda complementar e diminuição do desmatamento e queimadas.

“O cerne da ação do Peabiru é apresentar aos diferentes contextos socioambientais como isto pode ser feito como negócio da agricultura familiar e como pode ser agregado às demais tarefas da agricultura”, explica.

Para o diretor do Instituto Peabiru, a polinização e os outros serviços ambientais oferecidos pelas abelhas sem ferrão podem até, economicamente, superar a agropecuária da destruição que impera na Amazônia, e que gera pouca renda e exclusão social.

“Estamos no início de uma era fabulosa na agricultura, onde o mel e outros produtos relacionados a polinizadores estarão associados à comida do futuro, e que, ao mesmo tempo, salvarão as florestas e a economia agrícola da Amazônia e das florestas tropicais”, acredita.

 

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Meirelles verifica produção de Melipona flavolineata. Mel da Pedreira, Macapá, AP. Fev/ 2016.

 

Há dez anos o Instituto Peabiru desenvolve ações de criação racional de abelhas sem ferrão junto a povos e comunidades tradicionais da Amazônia. No início, a atividade era muito pouco conhecida e valorizada, restrita a meios acadêmicos. Quais razões levaram a instituição a apostar na meliponicultura?

João Meirelles – No início dos anos 2000, quando conhecemos a criação de abelhas sem ferrão, a meliponicultura, abriu-se um universo para nós no Instituto Peabiru. Ficou claro que a temática não se reduzia a produzir um mel diferente. O que aprendemos é a necessidade de tratar da agricultura e da conservação com a participação das abelhas silvestres e os polinizadores em geral. Conseguimos os primeiros recursos e erramos bastante no início. O maior problema foi que os projetos eram de curto prazo e havia grandes intervalos entre um projeto e outro. Mesmo assim, insistimos que esta seria uma área de atenção especial da organização. Com o desaparecimento das abelhas no planeta, o recrudescimento do desmatamento e das queimadas, aumentou um pouco a sensibilidade geral para o papel dos polinizadores, onde se insere a meliponicultura. O que queremos mesmo é a efetiva atenção das políticas públicas, dos agricultores e dos formadores de opinião que se preocupam com o meio ambiente. Na verdade, estamos na pré-história da criação de abelhas sem ferrão e os benefícios desta ação para a sobrevivência do bioma Amazônia e de suas populações.

Quais são os principais aprendizados e resultados alcançados nessa década de trabalho? Hoje, a que ponto está o projeto Néctar da Amazônia?

João Meirelles – É desmistificar a criação de abelhas sem ferrão. O grande esforço é simplificar a atividade, baratear sua implementação, torná-la o mais autônoma possível. Se queremos que milhões de agricultores na Amazônia brasileira e continental e em outros biomas tropicais e subtropicais criem abelhas sem ferrão como criam galinhas, o pacote tecnológico deve ser bastante simples. A parceria com a Embrapa Amazônia Oriental é estratégica neste sentido. Diversos pesquisadores e criadores de abelhas sem ferrão no Brasil desenvolveram métodos simples de criação e avançaram bastante na pesquisa e tecnologia. Mas, a criação propriamente dita continua a ser um hobby, em escala não comercial. O cerne da ação do Peabiru é apresentar aos diferentes contextos socioambientais de que maneira isto pode ser feito como um negócio da agricultura familiar, e como pode ser agregado às demais tarefas da agricultura. O projeto Néctar da Amazônia avançou também na plena legalização da atividade, seja na criação de um animal da fauna brasileira, seja na autorização de comercialização do produto: o mel de abelhas sem ferrão. O apoio do Fundo Amazônia (BNDES) desde 2014 foi fundamental para completar o ciclo de produção da cadeia de valor do mel de abelhas sem ferrão, desde o agricultor familiar até a prateleira do mercado.

Como é possível aliar em um produto agroalimentar informal, como o mel de abelhas sem ferrão, uma alternativa de renda para famílias rurais de baixa renda e uma iniciativa de combate ao desmatamento e as mudanças climáticas?

João Meirelles – Se uma família de agricultores, com renda de um salário mínimo mensal, vender 40 litros de mel em um ano a R$ 20,00/litro, terá uma renda de R$ 800,00, bem próximo da renda de um mês da família. Isto faz muita diferença. É surpreendente que ainda haja mais de 1 milhão de famílias altamente excluídas no meio rural amazônico brasileiro. Mas, a criação de abelhas sem ferrão oferece oportunidade de melhorar a segurança alimentar ao garantir mais frutos, castanhas e outros produtos em sua roça de subsistência; permite maior produtividade aos negócios que geram dinheiro ao agricultor, como o açaí, o cacau e outras frutas; e oferece uma nova compreensão no manejo de recursos naturais, especialmente no cuidado com o fogo, com o desmatamento e com os polinizadores em geral. A valorização do mel pelo mercado gourmet é uma janela de oportunidade que precisa ser aproveitada e que poderá garantir valores ainda maiores para o agricultor. É um produto que apresenta distintos sabores, colorações, e está pronto a receber identificação geográfica (IG) e ser relacionado à comunidade que o produz: quilombola, ribeirinha ou indígena. Não se trata da salvação da lavoura e sim uma renda complementar na cesta de produtos da agrobiodiversidade típica da agricultura familiar amazônica, especialmente de povos e comunidades tradicionais.

Apesar da meliponicultura não exigir altos investimentos em roupas de proteção e outros insumos caros como na apicultura, sabe-se que a produção é muito pequena e requer dedicação. Isso não gera desinteresse dos pequenos produtores? Como é feito o trabalho de envolvimento dessas famílias rurais com a atividade?

João Meirelles – Em verdade, a dedicação exigida é bem pequena se comparada a outras atividades rurais. Outra vantagem é poder localizar o meliponário (as caixas de abelhas) próximo à residência. Algumas horas semanais são suficientes para cuidar das abelhas. Numa primeira etapa de cerca de dois anos não há renda, pois o objetivo é multiplicar o número de colmeias. Por exemplo, de 4 colmeias, em dois anos pode-se alcançar, sem dificuldade, cerca de 20 colmeias. A partir daí vende-se o mel anualmente, e este vem alcançando bom preço por ser raro e único. Se o cuidar das abelhas e a renda ficar na mão da mulher certamente é a segurança alimentar da família que ganha. E se envolver jovens, teremos aí uma nova profissão para o campo brasileiro, a de meliponicultor. Também temos a renda da venda das colmeias para outros agricultores, que são necessárias para a expansão da atividade e que, no momento, pode ser tão ou mais significativa que a venda do mel.

Em realidades de exclusão como a de muitas famílias rurais e comunidades tradicionais da Amazônia, como a produção do mel pode garantir segurança alimentar?

João Meirelles – Primeiramente, o mel é um poderoso e completo alimento, muito mais que um simples adoçante. Pode ter importante papel para melhorar a segurança alimentar e a qualidade de vida, especialmente de crianças (acima de 1 ano), jovens e idosos. Em segundo lugar, a presença das abelhas aumenta em pelo menos em 30% a produção de frutíferas, verduras e outras árvores que fazem parte do pomar no entorno da casa, o que significa mais alimento de qualidade no prato. Em terceiro lugar, ao aumentar a produção das atividades que geram dinheiro para o agricultor – açaí, cacau, frutíferas, castanhas –, permite que haja mais recursos para a aquisição de produtos que complementam a produção local. Há os efeitos complementares e de longo prazo, altamente relevantes, entre os quais está evitar o desmatamento e as queimadas que tem impacto na sobrevivência das gerações futuras. Menos fogo e desmatamento significa mais umidade no solo e no ar, cursos d’água fluindo mais tempo, solo mais fértil, maior biodiversidade, maior presença de polinizadores, menor risco de pragas e, afinal, para as culturas agrícolas que dão dinheiro melhor chance de bons resultados.

O recente aumento do interesse de mercado pelo mel de abelhas sem ferrão para a gastronomia poderia transformar a meliponicultura em uma oportunidade de ampliação de benefícios sociais e ambientais na Amazônia?

João Meirelles – Sim, na medida que expande-se a produção, pode-se oferecer mais mel, a menores preços e em diferentes variedades. Hoje se tu quiseres mel de abelhas sem ferrão será difícil obtê-lo e, legalizado, então, praticamente inexistente. É um nova família de produtos para a gastronomia que se abre. Veja o queijo ou o vinho, há um grande esforço em relacionar o produto a determinada região, apresentar as suas características únicas tanto relacionadas ao meio natural como ao processo cultural para sua obtenção. O mesmo se pode fazer para o mel. Imagina, então, que o mel produzido pelo grupo indígena Galibi, das grandes florestas de terra firme do Oiapoque, no Amapá, relacionado a uma determinada espécie de abelha, que só se encontra lá, oferece padrões, sabores e odores muito particulares! Este mel certamente será distinto daquele extraído pelo agricultor familiar do entorno da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá, no Salgado Paraense, que protege as florestas de mangues. Acredito que estamos no início de uma era fabulosa na agricultura, onde o mel e outros produtos relacionados a polinizadores estarão associados à comida do futuro, e que, ao mesmo tempo, salvarão as florestas e a economia agrícola da Amazônia, e nos permitirão superar a agropecuária da destruição que impera na Amazônia, que gera pouca renda e muita exclusão social.

O Instituto Peabiru alcançou uma regulamentação inédita para os pequenos produtores, o que foi um grande avanço, mas quais são ainda as principais dificuldades para o fortalecimento de uma escala comercial do mel de abelhas sem ferrão? Como sair do mercado informal e entrar nas prateleiras dos supermercados?

João Meirelles – Estamos em plena campanha pela simplificação do licenciamento da criação de abelhas sem ferrão. É inimaginável que um agricultor, isolado, sem acesso à internet ou escritórios de órgãos públicos, com dificuldade de comprovar a sua legítima posse de terras ancestrais seja capaz de manter atualizado o seu cadastro como produtor. Precisamos pensar sistemas simplificados que estimulem o manejo de abelhas sem ferrão e que contribuam para a manutenção de sua biodiversidade. Quanto à formalização deste processo, há que se considerar a legalização do produtor e suas abelhas, de uma lado; e, de outro, a obtenção de um produto que seja seguro para consumo e tenha o selo de inspeção público, seja este municipal, estadual ou federal.

A grande agricultura brasileira e também a agricultura familiar já descobriram os benefícios da polinização para o aumento da produção e a qualidade dos frutos. Qual a sua avaliação?

João Meirelles – Deveria ser obrigatório o ensino sobre o papel dos polinizadores e seu impacto na alimentação planetária e para a sobrevivência dos ambientes naturais. Mesmo em culturas como a soja, a polinização pode aumentar em 30% sua renda. As escolas de todos os níveis do país deveriam criar abelhas sem ferrão para apresentar o seu papel na sociedade. Como queremos que o consumidor que não conhece a importância das abelhas silvestres se preocupe com a sua conservação e mesmo criação se ele não conhece a sua importância? As escolas técnicas agrícolas, a universidade nas áreas de ciências agrárias e biológicas e as assistências técnicas rurais têm obrigação de dominar o tema, esta deveria ser uma prioridade nacional – o agricultor brasileiro tem direito a este conhecimento, a este ativo da biodiversidade brasileira. Sem abelhas não há florestas. Sem abelhas não há comida.

Diante dos grandes benefícios sociais e ambientais oferecidos pela meliponicultura, nossas abelhas brasileiras, as abelhas sem ferrão, poderiam se tornar animais de criação doméstica, como galinhas e porcos, nas roças e quintais das pequenas famílias rurais da Amazônia? Quais seriam os caminhos para isso?

João Meirelles – Esta é a proposta. Todo agricultor familiar, todo sítio de lazer e mesmo espaços urbanos deveriam ser utilizados para criar e facilitar a vida dos polinizadores. Vamos precisar de todos os polinizadores bem protegidos e respeitados se quisermos ter comida neste pequeno planeta. Vamos começar pela Amazônia. A lição de casa é simples: cada agricultor precisa compreender que a meliponicultura é uma atividade agrícola como qualquer outra, como criar galinhas, porcos ou outros animais.

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