#DiadaAmazônia Agenda: discutir o impacto de nossa dieta para o futuro da Amazônia

A produção de proteínas de alto impacto socioambiental está diretamente relacionada aos crescentes níveis de desmatamento na Amazônia e o que colocamos à mesa tem grande influência nesse cenário

O Brasil abriga a maior extensão de floresta tropical do planeta e é considerado um país megadiverso devido à dimensão e diversidade de seus recursos biológicos. Suas florestas, naturais e plantadas, correspondem a aproximadamente 58% do território nacional, o equivalente a 493,5 milhões de hectares. Entretanto, tais números significam uma maior responsabilidade sobre esses recursos, sobretudo no que diz respeito à contribuição brasileira à manutenção das florestas mundiais. De acordo com relatório da Food and Agriculture Organization das Nações Unidas (FAO, 2015) o Brasil encabeça a lista dos países com maior perda de área florestal entre 2010 e 2015, evidenciando que a redução dos níveis de desmatamento segue como um indicador da incapacidade de cuidar deste patrimônio. Uma das principais causas é a incapacidade dos setores públicos brasileiros em enfrentar a questão com determinação, especialmente no que se refere à fiscalização e punição da atividade ilegal. As políticas públicas também não conseguem oferecer incentivos a alternativas para a conservação associadas à bioeconomia e ao respeito a povos e comunidades tradicionais.

Um dos maiores desafios da humanidade está em associar seus hábitos de consumo ao impacto na conservação das florestas. Recentemente, o alerta de queimadas de florestas amazônicas reacendeu o debate sobre os contextos e principais causas do desmatamento na região. Neste contexto a pecuária se apresenta como o principal motor do desmatamento, devido a seu alto potencial lucrativo para os produtores (MARGULIS, 2003). Em todo o planeta a pecuária é o setor econômico que mais utiliza terras (pastagens: 26% da superfície livre de gelo; produção de ração animal: 33% das lavouras), ocupando mais de 1/3 das terras úteis do globo. As florestas tropicais estão entre os ambientes mais pressionados pela expansão da atividade pecuária, com uma perda global de 600 milhões de hectares de vegetação, 25% deles no Brasil. Perdemos em média cerca de 1% de florestas tropicais por ano, o que levará o Planeta, neste ritmo, a reduzir mais de 80% dessas florestas até o fim do presente século.


Cerca de 1/3 das florestas tropicais brasileiras já foram destruídas. A Amazônia Brasileira acumula perdas de 75 milhões de hectares (mais de 15% da área original) e a Mata Atlântica de pelo menos 100 milhões de hectares (88% do original). Hoje, mais de 3/4 das áreas onde havia florestas tropicais são ocupados pela atividade pecuária (MEIRELLES, 2013).

Só no Brasil 200 milhões de hectares são dedicados a pastos, enquanto a maior parte dos 33 milhões hectares de soja e dos 15 milhões hectares da safra de milho (em 2 safras) é destinada à alimentação animal (tanto no Brasil quanto no exterior). Isto equivale a aproximadamente 220 milhões de hectares de terras no Brasil dedicados à pecuária. Em menos de meio século, o Brasil deslocou mais de 40% de seu rebanho bovino para a Amazônia. Se projetado seu crescimento como nas últimas décadas, metade da boiada do Brasil viverá na região amazônica nos próximos anos. Como a produtividade altera-se lentamente, será preciso desmatar mais 40 milhões de hectares (o equivalente à soma dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro).

Rediscutir a dieta – um tabu?

A obtenção de proteínas para a segurança alimentar em atividades que não esgotem os recursos naturais do país e do planeta raramente está na agenda pública brasileira ou mesmo de outros países. Cada vez mais estudos apontam a necessidade de diminuir o consumo de carnes e laticínios (CHATHAM HOUSE, 2015). Ainda assim, tem prevalecido o modelo de desenvolvimento que valoriza e estimula o consumo de carnes e laticínios como parte imprescindível da dieta humana. Os consumidores, por sua vez, raramente relacionam o que está à mesa com a destruição dos recursos naturais, com grande parte dos consumidores transferindo a responsabilidade do que consome ao poder público e a grandes corporações.

Relação entre produção de proteína animal e exploração dos recursos naturais ainda não está presente no debate público sobre a conservação da Amazônia. Imagem: Hermes River/Unsplash


Se os impactos da produção intensiva de proteína animal são devastadores e com efeitos imediatos (como as queimadas), por que o apelo pela contribuição popular com o meio ambiente restringe-se a recomendações banais e pueris como “separe o lixo” e “tome banhos curtos”? Por que a mídia, a academia e mesmo os ativistas não discutem a dieta do brasileiro e do planeta? O que justifica a manutenção do aparente “foro privilegiado” de que goza a pecuária no Brasil?

Embora o brasileiro se coloque como um dos povos mais preocupados com o ambiente e mudanças climáticas [LEISEROWITZ, 2007; PEW 2015], a maioria de nós não toma decisões racionais baseadas no conhecimento sobre o impacto socioambiental do consumo e de suas consequências às próximas gerações. Raríssimos aceitam o fato (e tomam providências) de que o seu consumo de carne bovina tem impacto direto na destruição da floresta amazônica.

É crucial buscarmos proteínas de baixo impacto socioambiental e baixo custo econômico, que promovam a geração de emprego e renda de forma sustentável, igualdade, bem-estar humano e animal, e possibilidades de sobrevivência neste planeta, com impacto positivo para a saúde humana e o clima. Entre as alternativas que precisam adquirir escala estão a produção de fontes de proteínas vegetais para alimentação, o consumo de produtos de base florestal e agroecológicos de áreas de regeneração e a criação de ambientes de negócios sustentáveis pelo mercado. Implementar estruturas legais, fortalecendo instituições e o acesso à informação pela sociedade civil é fundamental, assim como apoiar ostensivamente a ampliação de práticas de produção e consumo sustentáveis, e consequentemente, a conservação das florestas e os serviços ambientais associados.

A colaboração entre os setores públicos, as organizações de ensino e pesquisa, as organizações de produtores, consumidores e o setor privado nos temas da alimentação, agricultura e meio ambiente se faz necessária para adotarmos definitivamente as alternativas de baixo impacto e reestabelecermos a real conexão entre estes aspectos da vida humana, sobretudo na Amazônia.

Discutir abertamente o impacto das atividades produtivas que se ligam ao consumo alimentar é o primeiro passo. A questão precisa estar nos currículos escolares, na pesquisa científica, na mídia. Precisamos de indicadores acessíveis e transparentes que informem sobre o impacto socioambiental do que comemos. Com mais acesso a informação e ao debate, torna-se mais viável não só tomarmos melhores decisões de consumo, como assumirmos o nosso papel cotidiano no combate à destruição das florestas e da própria possibilidade de sobrevivência no Planeta Terra.

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